Terno
O homem de terno chegou a sua casa em torno de três horas da manhã estava visivelmente embriagado, mas nem se preocupava com isso, não tinha uma mulher para poder brigar com ele. Ele ligou a luz da sala e ficou olhando os móveis arrumados, da mesma maneira que ele tinha deixado ao sair do trabalho. Ele andou mais um pouco e fiou em frente ao sofá, fitando-o como um estranho ameaçador, o novo estranho não se mexeu, muito menos o homem de terno. Minutos se passaram nessa cena congelada do universo e um dos dois resolveu dar o primeiro passo.O homem de terno atacou primeiro as almofadas, felizes almofadas que esperavam uma simples bagunça feita por crianças mal educadas, elas não esperavam o que estava preste a acontecer. O homem de terno as pegou brutalmente e começou a rasgá-las, dentes, unhas, olhares, rugidos, tudo isso era batido no liquidificador e, a partir daí, conseguíamos decifrar essa cena deplorável. O homem de terno venceu a batalha sem visível razão. Ele não estava contente precisava encontrar outra vítima. Na cozinha.
A cada espaço do seu imóvel que ele percorria, ele acendia a luz para ver suas paredes implorando por piedade. Ele queria humilhar a sua própria casa, do mesmo jeito que ela o humilhava dias a fio. Os quadros do corredor suspiravam aliviados quando ele passava e isso irritou o homem de terno, ele pegou um quadro e pôs todo o seu fôlego para fora e arrastou na parede derrubando todos os quadros, fotos e certificados. Ele estava tentando destruir todas as lembranças, mas não percebeu que ele só conseguia destruir as boas lembranças.
A cozinha estava impecavelmente limpa. Ele abriu a geladeira, pegou seu prato frio, esquentou-o no micro-ondas e comeu devagar. Ao por o prato na pia ele se afastou, contemplou o prato por um momento e seus pulmões saltaram da boca mais uma vez. Primeiro, as coisas mais visíveis: as que estavam no balcão. Segundo, as que estavam no armário. Terceiro, a geladeira. A cozinha também perdeu.
O homem de terno foi ao seu quarto. Vários cômodos o separava de seu próprio quarto, quartos vazios, salas para funções inutilizáveis e por fim, seu quarto luxuosamente decorado.
Uma cama de casal. Uma televisão. Um home-theater. E um note posto bem no meio da cama, delicadamente torto, delicadamente entreaberto. Ele olhou para uma gaveta no seu guarda roupa e abriu uma gaveta com alguns DVDs e tirou um cuja capa era preta. Ele ligou o DVD player e a televisão. Ele olhou várias mulheres nuas expostas de uma maneira ridícula por causa de dinheiro e isso o excitava. Ele abriu as calças e começou a satisfazer sua tensão sexual. Ele olhou para os corpos nus das garotas.e, com as calças baixas, tirou a colcha da cama e olhou ela nua, não há nada mais triste do que uma cama sem sua colcha.
Ele continuou o que estava fazendo até libera o que estava preso em seu corpo durante meses. Ele se sentiu aliviado da tensão. O álcool não atuava em seu corpo e não o iludia mais que ele podia fazer tudo, então ele percebeu: ele não podia fazer nada, exceto uma coisa.
O caminho até o banheiro foi o mais fácil. Foi o mais rápido e calmo. Uma música começou a tocar, era difícil saber se era na cabeça dele ou se era alguma música por perto. Era uma flauta suave e melancólica, era a flauta mais triste que ele já tinha escutado em toda a sua vida.
Tudo aconteceu muito rápido, os remédios estavam prontos. Ele já havia pensando nisso antes, mas faltava coragem e ele conseguiu. Os remédios, a água, a morte, a escuridão, o esquecimento.
Todo mundo tem uma dia ruim canalizado pelo alcool '-'
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